Talvez a marca mais persistente da fraqueza humana seja a guerra, expressão brutal da incapacidade de viver em harmonia com o outro: o que pensa diferente, o que reza diferente, o que é diferente. A Guerra Colonial hipotecou ou aniquilou o futuro de milhares de jovens portugueses, na maioria forçados a lutar por algo em que não acreditavam ou que não percebiam: a alegada defesa da pátria mascarava a obstinação imperial de Salazar, que o resto do mundo rejeitava. Estertor da ditadura, deixou cicatrizes, físicas e psicológicas, em quem lá andou. E os deficientes das Forças Armadas, que só ganharam respeito e direitos por se unirem numa associação nada militarista, são, em simultâneo, símbolo do horror a que foram submetidos e exemplo da determinação com que se reinventaram e reergueram.
José Silva, 72 anos. Mal chegou à Guiné, percebeu que a guerra era injusta e sem sentido, ao contactar com a dura realidade das populações locais. E muito injusta seria também para ele próprio, que, cego e sem mãos na sequência de uma explosão, em 1973, não pôde ter a vida com que sonhara, conduzindo camiões pela Europa fora.
Albino Loureiro, 72 anos. Antes de ir para a tropa, em Felgueiras, por influência de um padre progressista, cantava música de intervenção contra o regime. Estava a dias de deixar Moçambique e voltar a casa quando uma mina lhe levou a perna direita e o cegou de um olho. Tinha apenas a quarta classe, mas lutou para estudar e realizou-se como professor primário.
Ilídio Lázaro, 71 anos. Esteve quase a conseguir escapar para França, mas foi detido e fizeram dele comando. Em Moçambique, foi dado como morto após um acidente de viação, em 1973, mas saiu vivo da morgue, fazendo jus ao apelido familiar. Sobreviveu a todos os combates, mas passou anos a lutar contra os “fantasmas” do stress pós-traumático.
Abel Fortuna, 71 anos. Mal desembarcou na Guiné-Bissau, sentiu-se um intruso em terra alheia, a defender o regime fascista a que cada vez mais se opunha. Nessa terra alheia, uma mina deixou-o sem mãos e praticamente cego, em 1971. Destacado desde o início na vida associativa, preside à delegação do Porto da ADFA.
António Marques, 78 anos. De Pindelo, perto de Viseu, foi parar à Guiné-Bissau em 1964, como soldado de cavalaria. As emboscadas começaram mal lá chegou, até que, um ano depois, uma explosão lhe ditou o fim da guerra, mas não do calvário. Ainda via de um olho, mas o mau acompanhamento médico na estrutura militar acabou por o mergulhar na cegueira total.
João Vasconcelos, 76 anos. Já era professor primário quando o roubaram à vida para ir para a guerra. Em Angola, no ano de 1968, coube-lhe desarmadilhar oito granadas em cadeia. Só uma rebentou, levando-lhe o braço direito e a audição do mesmo lado, enchendo-lhe o corpo de estilhaços. No seio da ADFA, chegou a dirigir o “Elo”, jornal oficial da associação.
Manuel Sousa, 76 anos. Foi levado para Moçambique, deixando para trás a mulher, grávida da filha de ambos. Em 1967, uma emboscada atirou-o para uma cadeira de rodas. Ainda tem alojada na coluna a bala que o paralisou.
ilvério Rodrigues, 73 anos. Perdeu os dois olhos e os dois braços em Bolama, na Guiné, ao preparar uma instrução. Não chegou a combater nem era belicista, mas acabou por fazer carreira como oficial do Exército, especialmente em funções sociais e de apoio a reclusos e a outros deficientes. É um caso notável de resiliência e de autonomia, apesar das limitações.
Francisco Janeiro, 73 anos. Em 1970, em Cabo Delgado (Moçambique), pisou uma mina. Perdeu a perna e o olho direitos, entre outras mazelas. Revoltado desde logo com a forma como a instituição militar o tratou, fez parte de acções de protesto dos deficientes militares, ainda antes do 25 de Abril, e tem sempre sido muito participativo na ADFA, a cuja delegação de Lisboa preside.
Fernando Ribeiro, 70 anos. Tentou, por duas vezes, dar o salto para França para escapar a uma guerra em que não se revia, mas acabou em Moçambique, onde perdeu os membros inferiores, em 1970. Acabou a estrear um lar só de militares, em Lisboa, e é hoje dos poucos que lá restam. Notabilizou-se no desporto adaptado.